Acupuntura dói?
A neurofisiologia por trás da sensação mecânica
Muitos pacientes hesitam em iniciar o tratamento devido ao medo da dor. No entanto, a sensação experimentada durante uma sessão de acupuntura é um fenômeno neurológico complexo que difere fundamentalmente da dor nociceptiva causada por lesão tecidual.
A diferença estrutural entre as agulhas
Crescemos com medo de agulhas, desde criança rejeitamos injeções e o “fantasma” das agulhas é uma ameaça na infância.
Agulhas utilizadas nas vacinas e medicações possuem bisel com corte que fere os tecidos, além de conduzirem líquidos com características distintas das fisiológicas: temperatura baixa, guardadas a temperaturas abaixo de 5 graus provocam choque térmico pois há uma diferenças superior a 30 graus; densidade, muitas vezes medicamentos “oleosos” em intramusculares levam tempo para serem absorvidos e provocam dor e desconforto; o pH distinto do fisiológico dos medicamentos, também gera dor e desconforto. Enfim, quando pensamos em uma injeção e não estamos falando somente da agulha mas sim de diversos fatores que irão sensibilizar o sistema nervoso periférico além do agravante psicológico. Já quando falamos de uma agulha de acupuntura é um outro instrumento, que, apesar da lembrança e do mesmo nome, agulha, tem características distintas e não carrega líquido.
Do ponto de vista mais técnico, diferentes das agulhas hipodérmicas (as de injeção) — que possuem bisel de corte e lúmen para injetar ou retirar fluidos — as agulhas de acupuntura são filiformes, sólidas e com ponta arredondada. Elas não cortam as fibras teciduais, mas as afastam. Segundo MacPherson et al. (2013) em estudos sobre segurança, a incidência de dor severa na inserção é extremamente baixa quando a técnica é aplicada por profissionais qualificados.
O fenômeno conhecido como “De Qi” e a ativação de fibras nervosas.
O que o senso comum chama de “dor” na acupuntura é, na verdade, a ativação do ponto, conhecida na MTC como De Qi. A obtenção do De Qi é essencial para a eficácia terapêutica, mas não necessariamente se manifesta como dor, mas sim como peso ou distensão.
Fisiologicamente, este processo envolve a estimulação de diferentes tipos de fibras. Estudos publicados na Nature Neuroscience demonstram que a rotação da agulha provoca um enrolamento do tecido conjuntivo (fáscia) ao redor da agulha, o que transmite sinais mecânicos potentes ao sistema nervoso (Langevin et al., 2001). As principais fibras envolvidas são:
Fibras A-delta: De condução rápida, responsáveis pela sensação inicial e pontual.
Fibras C: Fibras de condução lenta que transmitem a sensação profunda e “surda” característica do tratamento.
Modulação da dor e a teoria do portão
Eletroacupuntura e a resposta bioquímica
Na eletroacupuntura, o controle sobre a percepção sensorial é ainda mais refinado. Conforme defendido por Jeremy Ross (2003), a combinação de estímulos permite um tratamento mais profundo em casos de estagnação severa.
Han (2003) demonstra que diferentes frequências de eletroacupuntura liberam diferentes tipos de opioides endógenos:
2 Hz: Estimula a liberação de encefalinas e endorfinas (receptores μ e δ ).
100 Hz: Estimula a liberação de dinorfinas (receptores κ).
Essa especificidade prova que a “sensação” da acupuntura não é um efeito colateral desagradável, mas sim o início de uma cascata neuroquímica de cura.
Referências bibliográficas
Cristiano Neves Ph.D.
CRBM5 - 000083
Diretor Geral NEAMEC
