Qual é o Ponto?

No sábado passado eu estava coordenando o estágio de acupuntura.
Tudo fluía como o de hábito: pacientes chegando na hora, alunos ocupando mais
tempo do que têm para atender, alguns confiantes (até de mais), outros perdidos
apesar de eu ter confiança neles. Assim é um dia normal de supervisão.
Porém no início da tarde adentra uma aluna na sala dos professores, em que eu
estava revisando os prontuários, e com muita calma e toda a serenidade esperada
de um acupunturista, ela me faz uma pergunta curiosa, mas não surpreendente.
– Professor, “ele” quer os pontos pra levar pra casa. O que eu
faço? (ela)
– Os pontos? (eu)
– Ele disse que tem agulhas e que sempre faz ele mesmo, nele mesmo. (ela)
Pasmo mas não surpreso, dei a única resposta que poderia:
– Não! Diga que não!
O desencadeante foi a orientação que dei aos alunos de que
ele (esse paciente) deveria retornar com uma frequência mais alta. Ele disse
que não poderia vir mas que dessem a prescrição que ele mesmo faria em casa.
O episódio é curioso mas não é incomum. Assim como também ocorrem
casos em que o paciente vem com parte da prescrição:
– Coloca naquele ponto que você colocou da outra vez. Me fez
tão bem.
Então eu penso: ora se fez bem é por que eu fui assertivo na seleção,
combinação e manipulação de pontos. O que não significa que sejam os mais
adequados para ele desta vez. E com tudo muda, evolui ou regride, sempre e
certamente a prescrição será outra. Mas isto é o que eu penso. O que digo para
ele é: – temos que avaliar qual a melhor combinação e técnica para o seu caso, no atual momento. (Tenho que parecer
simpático. Não é?)
Outro caso comum é:
– Coloca aquela sementinha pra emagrecer, e aquela outra no ponto da ansiedade!
Isso mesmo. Com ponto de exclamação e não de interrogação.
Ocorre que está muito difundida a ideia de que acupuntura se faz por receita,
que existe uma formula básica genérica. Ideia difundida por profissionais que
fizeram cursos rápidos (não que os rápidos sejam ruins) ou sem orientação
adequada (que é o mais importante). Estes “profissionais” espalham o “vem cá que te coloco uma sementinha pra emagrecer”.
Também foram difundidas largamente técnicas domésticas como a prática de do-in, não que seja algo impróprio, mas é doméstico e não muito assertivo quando
praticado da maneira como foi outrora difundido.
No caso do do-in, veja o exemplo do HeGu (IG4), ele é amplamente usado e
difundido para tratar “dor de cabeça” (no do-in). Porém muitos relatam que não
funciona tão bem assim, ou que nem sempre funciona. Ai surgem dezenas de
explicações para justificar, a maioria delas com cunho místico e fatalista. E
por que não funciona sempre o HeGu (IG4) para cefaleias? Principalmente por três
motivos muito simples:
1 Não se está pressionando o ponto de maneira adequada. Sim,
a manipulação de um ponto é tão importante quanto o próprio ponto. Manipulação
inadequada é como tomar o remédio certo na dose errada.
2 Não se está pressionando o ponto certo (ou ponto nenhum). Parece estranho mas
grande parte dos livros de do-in mostram o HeGu (IG4) no local errado e até
mesmo muitos profissionais não sabem onde fica exatamente este ponto (mesmo sendo
um dos mais utilizados nas clínicas de acupuntura). Então como pode ter efeito
se sequer o ponto está sendo pressionado?
3 Talvez o motivo mais importante. O ponto HeGu (IG4) tem influência sobre a
face, isto é, ele age sobre face, a fronte e parte, apenas parte, das têmporas. Ficando
ai de fora grande parte das cefaleias. Aquelas que não são frontais.
Este exemplo do HeGu (IG4) ilustra o quanto um ponto pode ser útil em um caso e em outro não, ou na evolução do mesmo paciente, ele se torna apenas um “peso a mais” para o Qì se ocupar.
Veja que isso não ocorre somente com acupunturistas.
Pacientes vão ao médico pedindo para fazer um exame específico, o paciente diz
pro médico qual exame veio fazer. Ainda pior, pede o remédio: – Dr. me receita
um comprimido de …
Outras vezes chega com diagnóstico “pronto”: Dr. estou com dor nos joelhos, estou com artrite, me de um anti-inflamatórios.
A mãe leva o filho ao nutricionista e diz: Dr. ele tem que comer mais
verdura…
Ao chegar ao psicólogo diz: Dr. eu tô com depressão… Tenho TDHA, me dá uma ritalina…
Ao chegar no educador físico diz: me passa uma série de abdominais…
No fisioterapeuta todos pacientes já sabem de tudo e dizem: Vim aqui pra você me
dar uns choques!
No acupunturista pede “ponto pra emagrecer”.
Assim a sociedade de consumo cria em sua mente um “menu da saúde” e passa o dedo e escolhe.
A lógica é simples. – Estou pagando, posso escolher.
Temos nós que tomar cuidado para não cair nesta armadilha. Sim ele está
pagando, mas não pode escolher! Não é por isto que ele está pagando. Está
pagando pelo nosso conhecimento e para que nós façamos uso deste e tomemos a
decisão que venha culminar no melhor resultado para o paciente.
Aliás, é por isso que se chama paciente. Porque ele é passivo (claro que tem parte ativa dele é importante), ele deveria esperar (ser paciente) por isso, ele deveria esperar que o
profissional fizesse a propedêutica e tomasse decisões pertinentes à sua área.
Diferentemente do cliente que escolhe num cardápio suas opções.
Da mesma maneira que temos que tomar cuidado
para não invadir outras profissões, e esclarecer para a sociedade qual é o objeto
da nossa, é nossa a tarefa de educar os usuários sobre nossos serviços a este
respeito.
Não sou partidário de que se dê “aulas” de Medicina Tradicional Chinesa na primeira consulta, que se fique explanando sobre yin e yang sob olhares desconfiados. Não mesmo. MTC deve ser explicada de maneira acessível e dentro de conceitos aceitáveis num primeiro momento. Não é importante a compreensão do paciente acerca de MTC para o sucesso do tratamento. No entanto deve-se explicar um fundamento básico da MTC:
A MTC compreende o ser como continuidade do natural, e como no natural, tudo
muda o tempo todo. Não há tratamentos fixos, o quadro clínico em MTC não é um
quadro. É um “filme”.
Um quadro é estático o filme muda. O que vemos são cenas. Em cada sessão há uma
nova cena e portanto uma nova escolha.

Cristiano Neves Ph.D.
CRBM5 - 000093
Diretor Geral NEAMEC
Uma resposta
Assim como os sinais e sintomas nas Síndromes. Os sinais e sintomas são as cenas de um filme, que é a síndrome.